Diferente de muitas, eu, quando criança, sempre tive tudo o que quis. Lembro muito bem. Devia ter aproximadamente 8 anos, ou nem isso, em um passeio informal de final de semana com meus pais, eu vi na vitrine de uma loja uma bola pequena mais ou menos do tamanho de um limão, duas cores, rosa e amarela translúcida. O que ela tinha de tão diferente, além da cor? Ela quicava. A bola que quica, como eu chamei na época.
A vitrine estava repleta delas. Todas amontoadas, valorizando as cores, uma forma fácil de chamar a atenção de qualquer criança que por ali passava. Entramos na loja, por insistência minha. Pude pega-lá, brincar por alguns minutos, mas não era minha, ainda. Eu não precisava, eu queria.
Quantas crianças racionais existem no mundo?
Depois de muito pedir, a razão adulta do meu pai gritou não para o meu desejo de menina mimada. Sem derramar uma única lágrima, frustrada, eu fechei a cara. No meu mundo, pai, querer é poder, querer era poder, pelo menos até esse dia. O passeio, que era informal, se transformou em algo formal. Respondia aos meus pais, como uma criança tímida conversa com um estranho. Sim, não, não quero, não vou. O passeio durou só mais alguns minutos, óbvio.
No caminho de volta ao carro, meu pai deu meia volta, como se tivesse esquecido a chave do carro. Para a minha não surpresa, meu pai, que até hoje é muito previsível, voltou com a bola que quica, com a minha bola que quica.
Pai eu não precisava, eu queria. Obrigada.
Depois de alguns anos de terapia; sim, uma criança que sempre teve tudo (e uso tudo como pronome indefinido, em seu mais alto grau de indefinição) o que quis, precisa aprender a lidar com os nãos que a vida impõe, um dia de cada vez. Mas hoje, essa “ex menina mimada” sabe diferenciar o que quer do que precisa, e na maioria das vezes, estes dois verbos andam juntos.
O que eu quero é quase sempre exatamente o que eu preciso.
Mas não, hoje, o meu pai não pode mais comprar pra mim. Não porque ele não queira, não possa, ou seja racional demais. Ele compraria, se o que eu quero hoje estivesse exposto em uma vitrine, ele compraria se tivesse preço. Não tem preço. Tem valor.
Eu preciso da mistura de paz e frison que sinto quando você está por perto.
Sabe quando está tudo calmo por dentro e as pernas ficam bambas?
Eu quero o seu beijo, as suas mãos, o meu corpo.
Quero você. Todo, completo, inteiro. Defeitos e qualidades, problemas e aprendizados. Não, eu não preciso, eu quero.
Eu preciso aprender o real significado da palavra paciência.
Eu quero aprender, com você, o real significado da palavra paciência.
Hoje, você pode me ensinar a lidar com um tempo que não seja o meu, assim como tentou o meu pai, há 16 anos atrás.
Quantos adultos racionais existem no mundo?
Hoje, eu quero a minha bola que quica.
E a minha bola que quica é você.