A minha bola que quica

31/12/2011

Diferente de muitas, eu, quando criança, sempre tive tudo o que quis. Lembro muito bem. Devia ter aproximadamente 8 anos, ou nem isso, em um passeio informal de final de semana com meus pais, eu vi na vitrine de uma loja uma bola pequena mais ou menos do tamanho de um limão, duas cores, rosa e amarela translúcida. O que ela tinha de tão diferente, além da cor? Ela quicava. A bola que quica, como eu chamei na época.

A vitrine estava repleta delas. Todas amontoadas, valorizando as cores, uma forma fácil de chamar a atenção de qualquer criança que por ali passava. Entramos na loja, por insistência minha. Pude pega-lá, brincar por alguns minutos, mas não era minha, ainda. Eu não precisava, eu queria.

Quantas crianças racionais existem no mundo?

Depois de muito pedir, a razão adulta do meu pai gritou não para o meu desejo de menina mimada. Sem derramar uma única lágrima, frustrada, eu fechei a cara. No meu mundo, pai, querer é poder, querer era poder, pelo menos até esse dia. O passeio, que era informal, se transformou em algo formal. Respondia aos meus pais, como uma criança tímida conversa com um estranho. Sim, não, não quero, não vou. O passeio durou só mais alguns minutos, óbvio.

No caminho de volta ao carro, meu pai deu meia volta, como se tivesse esquecido a chave do carro. Para a minha não surpresa, meu pai, que até hoje é muito previsível, voltou com a bola que quica, com a minha bola que quica.

Pai eu não precisava, eu queria. Obrigada.

Depois de alguns anos de terapia; sim, uma criança que sempre teve tudo (e uso tudo como pronome indefinido, em seu mais alto grau de indefinição) o que quis, precisa aprender a lidar com os nãos que a vida impõe, um dia de cada vez. Mas hoje, essa “ex menina mimada” sabe diferenciar o que quer do que precisa, e na maioria das vezes, estes dois verbos andam juntos.

O que eu quero é quase sempre exatamente o que eu preciso.

Mas não, hoje, o meu pai não pode mais comprar pra mim. Não porque ele não queira, não possa, ou seja racional demais. Ele compraria, se o que eu quero hoje estivesse exposto em uma vitrine, ele compraria se tivesse preço. Não tem preço. Tem valor.

Eu preciso da mistura de paz e frison que sinto quando você está por perto.
Sabe quando está tudo calmo por dentro e as pernas ficam bambas?

Eu quero o seu beijo, as suas mãos, o meu corpo.
Quero você. Todo, completo, inteiro. Defeitos e qualidades, problemas e aprendizados. Não, eu não preciso, eu quero.

Eu preciso aprender o real significado da palavra paciência.
Eu quero aprender, com você, o real significado da palavra paciência.
Hoje, você pode me ensinar a lidar com um tempo que não seja o meu, assim como tentou o meu pai, há 16 anos atrás.

Quantos adultos racionais existem no mundo?
Hoje, eu quero a minha bola que quica.
E a minha bola que quica é você.

I hate orange

14/12/2011

Abóbora, sopa de abóbora, cenoura, halloween.

Dani está na fase do laranja. Sem saber nem ter conhecimento, ele está na fase do laranja. Terceira vez que fica gripado esse mês, dor de cabeça constante, labirintite, infecção urinária, até xixi laranja Dani está fazendo, efeito do remédio. Tadinho. Desse jeito Dani, fica impossível sair de casa, quanto mais estar fisicamente com alguém, né? A não ser que esse alguém tenha título de Doutor.

Liso.
O mais liso, como ele mesmo se autodefine e enfatiza com um aparente prazer. Estranho, mas me soa como uma tentativa de se autopromover. Tiro no pé? Não. Esperto; muito esperto, mas liso.

Não há uma peça de roupa laranja no armário de Dani. Soube disso dia desses, quando recebi um telefonema de Dani com uma voz de muita indignação:

- Você não sabe!? Acabei de ver uma menina usando uma blusa “I Love Orange”. Como pode!?
- Ué. Tem gente que gosta. Eu disse.

Melhor não contrariar.

Dani nunca gostou de laranja, de forma inconsciente talvez ele já soubesse o que o esperava, nada é por acaso.

Fase do laranja é assim mesmo, Dani. Mas passa, como tudo na vida. E como dizem por ai depois da fase do laranja vem a bonança.

Pajerão

05/12/2011

” Ele era gordo, feio, suado e tinha bafo.” Mais uma confissão rodeada de fandangos, copos vazios de ovomaltine do Bob´s e sapatos profissionais de dança de salão. Mais uma confissão pro Pajerão.

Tadinho.
Mais uma, entre tantas, tantas outras.

Diante; ou melhor, dentro do Pajerão não há vergonha, não há pudor. Ele conhece, em minúcias, o que há de melhor e pior em nossos “eus”. Quase um confessionário, talvez o único que os pecadores, melhor dizer, que as pecadoras não recebam penitências. Porque também se recebessem…

Não há penitência, pois não há padre e muito menos santas, são só confissões.

Quantas pessoas o Pajerão já ouviu falar, quantas o Pajerão conhece, quantas ele conhece e já ouviu falar, a maioria. Curiosos podem querer ir atrás do Pajerão; em vão. Ele que tudo sabe, nada conta, nem sob forma de tortura, nem chantagem.

O que é confessado no Pajerão, fica no Pajerão.

Gostosuras e travessuras

18/11/2011

31 de outubro. Era noite de Halloween, festa de Halloween.

Vi você pela primeira vez, era só mais um monstro no meio de bruxas, vampiros, diabinhas. Não vi nenhuma parte do seu corpo. Vi o corpo. Uma dança quente. Um monstro dançando com uma bruxa de meia arrastão e sandália alta. Não sei se inebriada pelo clima da festa, a diabinha que existe em mim, ardeu de inveja.

Mesmo sem conhecer o seu rosto, seu cheiro, sem saber seu nome, eu fantasiei.
E na minha fantasia, você estava sem.
Gostosuras e travessuras.

Ao final da noite eu só tinha uma certeza. Que um dia, não importasse quando, a minha fantasia iria se tornar real.

Um momento para dois, um momento por dois

30/10/2011

A dança é um momento.
Um momento de prazer, um momento de sorrir, um momento de se entregar, um momento do corpo, um momento da alma.
O abraço é um momento.
O beijo é um momento.
A vida é um momento.

Bons momentos são, na maioria das vezes, compartilhados.
Três, quatro, cinco.
Dois.
Ninguém abraça sozinho.
Ninguém beija sozinho.
Ninguém vive sozinho.
Ninguém dança sozinho.

Freud explica, não responde.

12/10/2011

“Pode me dar o seu telefone?”
Depois de menos de meia hora de conversa ele me fez o pedido.
Eu hesitei e sem chance de qualquer resposta da minha parte, ele logo percebeu e fez outra pergunta.

Você tem namorado, né?

O meu desejo, naquele momento, foi responder. “Sim, eu tenho.”
Mas eu respondi. “Não sei.”

Estranho não saber se está ou não namorando, mesmo nos dias de hoje, que inventamos diferentes rótulos para não assumir o nosso desejo de estar junto. “A gente tá ficando”, “estamos nos conhecendo”,” Não, não estamos só saindo”. Mas independente de nomes e rótulos, hoje eu sei que quando há a dúvida a resposta é uma só. Não.

O que será que pode haver de tão errado em assumir o envolvimento? Em querer de fato, na prática e na teoria, estar com alguém?
Na prática não parece tão errado, mas na teoria sim.

Certo sentir ciúmes. Natural.
Certo suportar a ausência do cheiro, do toque, do beijo e mesmo depois de meses, perceber que o desejo está ali, intacto. Quer sinal maior de que tudo está mais do que certo?
Certo querer saber quem ligou.
Certo ligar só para saber como foi o dia e dar boa noite.
Certo dividir conquistas, derrotas, senhas de email, almoços, tardes e noites inteiras.
Certo dormir de conchinha mesmo com a ausência do sexo.

Errado não gritar, não expor para si próprio e para o mundo o desejo, a vontade de estar junto. Medo?
Natural sentir medo, mas na teoria, errado.
Errado não se entregar de corpo alma.
Errado estar junto e não estar. Mais ainda, errado estar junto e não querer se envolver. Errado não. Pra mim, impossível.
Errado guardar no fundo do armário um desejo, um sentimento. Muito errado.

Sou feita de carne e osso, e sim, olha que engraçado, pessoas de carne e osso se envolvem, sem pensar muito no que é certo, no que é errado, até porque pessoas de carne e osso erram e acertam, e estar ou não envolvido não é uma escolha. Acontece. Aconteceu comigo, aconteceu com a gente.

E agora eu me pergunto, mas ainda sem qualquer resposta, o que pesam mais os erros ou os acertos?

Moça bonita, paga.

16/09/2011

Em uma conversa despretenciosa e informal eu revelei um dos meus maiores defeitos:

“Eu sou impaciente” – Confessei
“Isso é porque você é tão bonita, que não está acostumada a esperar?” – Ele respondeu

Fiquei tão estarrecida com o comentário que nem se quer tive como responder. Era como se meu cérebro precisasse de um tempo para digerir aquela informação. Precisou.
Na hora, a minha ingenuidade, falou mais alto e me fez engolir o comentário como uma cantada, talvez foi sim, uma tentativa. Desastrosa.

Só porque aos olhos deste suposto conquistador eu sou “tão bonita” eu tenho o direito de ser impaciente? Que tipo de relação pode existir entre a qualidade X e o defeito Y? Para mim, confesso, nenhuma. Nenhuma beleza, por mais impecável que seja, não elimina defeito algum. E não é preciso pensar muito pra perceber o óbvio, nenhuma qualidade elimina nenhum defeito. Defeitos e qualidades podem, e ocupam, o mesmo corpo no mesmo espaço de tempo.

Vai levar uma moça bonita, com toda a sua impaciência. Promoção dois, por um. A escolha é do freguês.

Não. Não é porque eu sou bonita eu sou impaciente. A beleza não traz a pessoa amada em três dias, as vezes nem em três anos. E o que me resta fazer se não esperar? Nunca consegui nenhum trabalho porque eu sou bonita, e quando tive meu carro rebocado levei um dia inteiro para resolver. Sim, com toda a minha beleza e quase sem nenhuma paciência. A beleza ajuda algumas vezes, hipocresia dizer o contrário. Mas não, não resolve problemas no Detran, não traz a pessoa amada, não conquista, não cativa, não encanta, não mantém. Seduz.

Moça bonita seduz involuntáriamente, é como se, há todo momento, estivesse vestida com uma linda e sexy camisola rendada vermelha. Está ai o meu amigo conquistador que não me deixa mentir, e a sua tentativa desastrosa. A beleza, muitas vezes, empurra guela à baixo certas coisas que você não gostaria de ouvir, coloca você em algumas situações que faz você desejar, pelo menos, uma verruguinha no nariz. Porque quem sabe assim você troca sua sexy camisola de renda vermelha por um moleton velho e aquele seu amigo que convida você para jantar insistentemente, perceba que vocês são só bons amigos.

Futuros Amantes

02/08/2011

3 meses. 12 semanas. 84 dias. Segundos, nem sei…Sei que segundos passam rápido, tão rápidos quanto um piscar de olhos. Tempo é relativo, depende da unidade de medida que se usa para contar, depende de como se sente. Hoje sinto falta, ausência. Ausência do seu cheiro, do seu toque, do seu olhar, sabe essas coisas que não podem ser dobradas e colocadas em uma mala?

Viajei e não trouxe quase nada do que eu gostaria, quase nada do que eu realmente precisava. Minha mala veio pesando 16 kilos. Só.

O peso da saudade veio com o tempo. Tempo que na verdade, agora, conta a nosso favor. Quantas vezes você já piscou o olho desde que começou a ler esse texto?

Mas entendo, e hoje sinto na pele, que é dificil enganar até mesmo os segundos quando desejo e ausência entram em conflito no mesmo espaço de tempo. O desejo rejeita a ausência, e na prática, são antônimos. Pior para quem fica, verdade. O tesão tem pressa. Ele grita. Grita pelo cheiro, pelo toque, pelo beijo. E até um ato que é tão rápido, como o piscar os olhos, dura quase uma eternidade.

Que outro jeito se não driblar os segundos a qualquer custo, de qualquer jeito?

Em vão, pense nisso. Os segundos passam, os minutos passam, os dias, os meses. É a ordem natural do tempo. Mas o desejo não consegue esperar.

Quem não tem pressa é o amor, esse espera em silêncio, como já cantou Chico Buarque em uma das minha canções favoritas, Futuros Amantes. E eu me pergunto, sem qualquer resposta. Será que só o amor é capaz de esperar? Será que um desejo não vivido não pode ser forte o sufiente e aprender a esperar? Até agora, quantas piscadas de olho você deu?

Encontro com o passado

01/07/2011

Confesso, sempre fui muito apegada ao meu passado. Certa vez escrevi sobre isso, que pra mim, o futuro não me parece seguro o suficiente para eu desejá-lo com todas as minhas forças, covardia talvez. Mas mesmo sendo covarde não tenho do que me queixar de nada que o futuro me reservou. E paradoxalmente o futuro me reservava o meu passado.

A maioria das pessoas, quase todas que conheço, definem o passado como tudo aquilo que foi, que passou. Mas o que elas talvez esqueçam é que o passado faz parte das nossas vidas de uma forma tão presente que muitas vezes nem é preciso resgatar fotos, videos, nem se quer lembranças. Basta olhar o nosso próprio reflexo, que o passado está ali, presente. Presente no nosso reflexo, e não é o nosso reflexo a copia fiel do nosso eu?

Hoje tenho comigo o meu passado tão presente que consigo ver nitidamente tudo aquilo que eu fui e que talvez ainda seja, só que de uma forma mais madura, mais centrada. Mais eu, menos você. Já vivi alguns amores, algumas dores, que o futuro me reservava, que o futuro me reservou. Mas mesmo assim, por algumas vezes, e hoje mais do que nunca me sinto como se ainda tivesse 17 anos e o meu passado nunca esteve tão presente não só diante do espelho, mas na minha vida.

Dia dos namorados

13/06/2011

Sem flores, sem cesta de café da manhã, sem juras piegas de amor eterno, sem promessas vazias. Um amor verdadeiro dispensa esses recursos fácies que muitas pessoas, por certezas vezes, utilizam para demonstrar todo seu amor.

Você chegou de óculos escuros como se quisesse esquecer, não viver, ou pouco se importasse com o que esta data impõe. Chorou, chorou, chorou. Falou pouco e mesmo que não falasse nada, perceberia o seu arrependimento tão forte quanto o cheiro de vodka que os seus poros exalavam. Eu só queria entender o porquê, mas não cobrei. Me doei a você na tentativa de curar sua ressaca física, sua ressaca moral.

No final de tudo você lembrou do meu presente, tão simples que aos olhos de quem desconhece o amor certamente pode parecer tolo, banal. 

- Obrigada por tudo.
- Tudo o que?
Perguntei na tentativa de lembrar a você que “tudo” é um pronome indefinido.
- Por estar sempre ao meu lado. Feliz dia dos namorados.

Você respondeu e eu não tive outra alternativa, comecei a chorar. Só então pude perceber de fato que, pra nós, esse dia é um dia tão especial como outro qualquer.


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